Gosto da paródia de Chaplin a Carmen (1915, Cecil B. DeMille) pela sua cena final. No filme de DeMille, quando Don José mata Carmen e se suicida, o contacto do objecto cortante com os corpos dá-se fora de campo. Em Burlesque on Carmen (1916), Chaplin (Darn Hosiery) mata Carmen em campo, mas com esta, de costas para a câmara, a impedir-nos de ver o golpe; no entanto, quando se suicida, o golpe é visível. Caem mortos no chão, quando aparece o terceiro elemento do triângulo - o toureiro - que desespera na versão de DeMille e que é golpeado pelo Darn Hosiery morto no filme de Chaplin. Darn Hosiery levanta-se, levanta-se também Carmen, e Chaplin (já não actor-personagem, mas cineasta-ilusionista) mostra a Carmen e à câmara que a faca, ao ser premida contra o corpo, resguarda-se dentro do cabo. O riso aniquila a possibilidade de lágrimas e evidencia que, chorar com um filme, é comover-se com o que é ilusório. O riso, esse, é sempre motivado pelo real. Para Chaplin, aqui, chora-se com o que o filme denota, ri-se com o que o filme conota.