25.9.11

Vertigo

O filme* inicia-se com a esposa cadáver, corpo inerte, deitado, coberto de flores. O homem corta-lhe a longa trança, para recordação. Mais tarde, vislumbra na rua uma nova mulher que lhe parece a velha (e morta) sua. Persegue-a, vitimado por magnífica obsessão, e iniciam uma relação. Tenta transformá-la na mulher morta. Veste-lhe o vestido da morta, mas é o vestido que era da outra que o faz aperceber-se terrivelmente de que esta não poderia jamais ser a mesma. Unheimlich. A mulher é tramada, sabe que o homem com quem está não é perfeitamente são, dá sinais de querer fugir, mas talvez seja masoquista, não foge, e então transforma-se em sádica, encontra a trança da mulher que era a dele e brinca com ela, perante o olhar tresloucado (eram os tempos do mudo) do macho. A trança é o sagrado, e a tentativa dela de dessacralizar a trança funciona como sentença de morte. Ele, bruto, tira-lhe a trança das mãos e serve-se desta para estrangular a malévola.

*Gryozy, Yevgeni Bauer. 1915