[post com todos os spoilers e mais alguns]
1. Kika era uma mulher que passava por uma grande quantidade de provações. Violações, invejas, relacionamentos com patetas, relacionamentos com assassinos, etc. Final da história: Kika não salva o dia, mas passa por ele de cabeça erguida. Um dos últimos planos do filme mostra Kika afastando-se da casa onde a desgraça ocorrera, rumo ao futuro incerto e à linha-infinito do horizonte, caminhando como quem levita, com a alegre consciência de ter sobrevivido à tormenta: tem a vida pela frente. La piel que habito é um filme sobre tudo isto. O mesmo twist que Almodóvar dava ao melodrama do cinema clássico norte-americano (especificamente o women's picture), transformando-o numa comédia muito negra, dá também a este, mas transformando-o num híbrido de tragédia e body horror retorcido - um melodrama que nunca chega a sê-lo. Kika e Vera são Joan Crawford, Bette Davis, Barbara Stanwyck, Lana Turner, Marlene Dietrich no final dos seus filmes. Celebra-se o girl (human) power.
1 1/2. O melodrama clássico, como sabemos, vive de metáforas óbvias. Temos esta: à medida que Vera vai sofrendo a transformação, a sua pele vai sendo fortalecida, num reforço da cisão entre o exterior e o interior que permitirá a sobrevivência: o mundo dos homens (um dos canais aos quais ela tem acesso durante a clausura é o National Geographic) não é o dos animais, e as leis que o regem são de outra complexidade - o que determina o mais forte não é somente a biologia, mas sobretudo a inteligência. Vera sobrevive porque endurece, e esse endurecimento potencia uma - à falta de melhor - inteligência existencial. Vera, como Kika e as outras, sofre muito, mas aprende a viver e sai fortalecida. Os predadores e as presas não o são à nascença, tornam-se-lo.
2. Não me parece produtivo atentar demasiado no valor-choque da mudança de sexo (O Sexto Sentido não mora aqui, e Almodóvar nunca se contentou com o twist pelo twist). Se a vaginoplastia se dá como acto de vingança (quem não ouviu alguém dizer que «o violador deveria ser capado» ponha o dedo no ar), toda a metamorfose que se lhe segue não tem nada que ver com vingança. Se em Vera há a heroína do melodrama, em Robert há o protagonista do amour fou horrífico e decadente, tornado autómato pela loucura de quem (contrariamente ao que sucederá com Vera) foi estragado pelo sofrimento. Com um corpo inteiramente à sua disposição, o cirurgião não resiste (é autómato, um quase fantasma) a usá-lo como matéria com que moldar a sua Galateia, a replicar nele o corpo da mulher que amara, mas tornando-a melhor ainda: se a esposa acabara por o trair (e morrendo por isso // "uma metamorfose é uma questão de moral"), esta poderá ser domesticada, porque criada «de raíz», logo, a mulher perfeita que ele não teve.
3. Os fantasmas maravilhosos de Vertigo e Odete. Judy diz, a certa altura, querer ser amada "as I am for myself", mas a sua existência enquanto Judy é invalidada pela incapacidade de Scottie de ver nela outra que não Madeleine (a mulher que aquele corpo performatiza, mas que não é realmente). O erro de cálculo de Scottie e de Robert (ambos loucos de amor/obsessão) é não perceber que Madeleine (como Vera [a verdadeira]) não são - porque jamais poderiam ser - criadas «de raíz», pois um indivíduo não se apaga para dar lugar a outro no mesmo corpo,
3 1/2 algo que Odete contraria perfeitamente. Neste filme, a personagem de Odete é, de facto, apagada, dando origem - no mesmo corpo - a Pedro. No final, Odete grita: «Chama-me Pedro», ao que Rui replica: «Pedro!» Ao fazê-lo, termina a metamorfose: Odete já é Pedro, independentemente de o seu corpo ser ainda o de Odete. Em La piel que habito sucede precisamente o oposto. Não obstante a total transformação do corpo, Vicente é ainda Vicente, e é esta a razão pela qual o filme - como Odete - tem como última palavra um nome: «mãe, sou eu, Vicente», evidenciando que, não obstante a operação perfeita (que só o cinema possibilitaria), aquele corpo não é o de Vera (a mulher que, como Madeleine, nunca existiu ou existirá, porque desvinculadas de uma consciência), mas o de Vicente. Quando Vera diz, no fim, que é Vicente, está a dizer que a pele habita-se, não se é: «mãe, sou eu, Vicente, e esta é a (nova) pele em que habito».