10.1.12

Amores imaginários

Usualmente o adolescente com pretensões de estilo e intelectualidade não irrita o adulto porque este já viveu essa fase, sabe que passará, e que tal pretensão no adolescente poderá ser, até, um sinal eventualmente positivo de vontade de instrução, de ultrapassagem da norma, ascensão: boa parte dos adultos mais sábios terá sido adolescente com pretensões de estilo e intelectualidade - cada um trabalha com o que pode, importante é não desistir. É por isto que não simpatizo com o ódio generalizado a Les amours imaginaires. É um filme com pretensões de estilo e de intelectualidade, mas tal é desculpável por se tratar de um filme adolescente, de quem cresceu a ver Wong Kar-Wai e Quentin Tarantino (cinema adolescente com mais ampla cultura cinematográfica) e procura seguir os seus modelos. Não há nada de errado nisto, quando o filme é adolescente.
O aspecto mais criticado é também o da minha predilecção: a frivolidade. O adolescente com pretensões de estilo e intelectualidade é frívolo porque ainda não apreendeu o que está sob a superfície das coisas, em suma: as dificuldades da vida - ficando consequentemente sobre as superfícies, porventura consciente de que algo há por debaixo. É por isto que, enquanto filme sobre o amor, este é muito mais interessante do que parece: é um filme sincero, que se propõe falar sobre o amor, assumindo, no entanto, que nada sabe sobre ele. É um filme que aprendeu sobre o amor a ver In the Mood for Love, que é como quem diz que não aprendeu nada sobre o amor (tal como também ninguém aprendeu nada sobre o amor a ouvir The Smiths, por muito que lhe pareça que sim). O que torna Les amours imaginaires um filme especial é precisamente a sua incapacidade de penetrar na polida superfície que apresenta. Se o modo do filme é frívolo e cínico, o seu cinismo é terno porque sabemos que acaba por rejeitar - na progressão da sua narrativa - o amor por não saber o que ele é, ficando-se apenas por um imaginário possível: o do slow motion, o do vestuário trendy, o das canções pop (faltam os Smiths, é verdade, mas são outros tempos...), o das referências erudito-gay (Cocteau e Miguel Ângelo, numa cena óptima). Por isto, acaba por nunca ser um filme sobre o amor, ficando-se por ser um filme sobre o fascínio. O fascínio de Marie e Francis pela superfície de Nicolas reflecte-se no fascínio do filme pelas superfícies melovisuais. Se no fim fica a ideia de que Marie e Francis eram, na verdade, não obcecados por Nicolas mas por si próprios (pelo seu olhar sobre o impossível/imaginário que Nicolas simboliza), também o filme é obcecado por si próprio (pelo seu olhar sobre o impossível/imaginário que o filme concretiza). Adjectivar um filme de «vazio» e ficar-se preguiçosamente por aí é igual a nada. Les amours imaginaires é um filme vazio porque é sobre personagens vazias e sentimentos esvaziados.