O modo como Peter Delpeut manipula o esquecimento colectivo do material recuperado em Diva Dolorosa (mesmo muitas histórias do cinema se esqueceram de que os filmes de divas italianos existiram alguma vez) parece, mais do que trabalho de arqueologia, sessão de espiritismo: o tipo de tratamento dado a estas imagens – até por, antipedagogicamente, nunca se nomear os filmes que vão sendo mostrados – atribui, num processo de essencialização da imagem cinematográfica, relevo a uma qualidade eminentemente fantasmática das mesmas. Quando este tipo de melodrama é despido da sua esquemática, mas relevante, dimensão narrativa, o conceito de diva deixa de existir associado a características que se prendam à diegese (modos de agir, modos de sofrer) e passa a ser – também ele, juntamente com as imagens – problematizado (e essencializado) como possibilidade de corpo (divino). Lyda Borelli, Francesca Bertini ou Pina Menichelli surgem não como as personas trágicas que interpretaram nos filmes em que participaram há cem anos atrás, mas como corpos duplamente desmaterializados: pela especificidade da imagem cinematográfica (fantasmática, bidimensional, mecânica, feita de luz, etc) e pela sua (nova, consequente da recontextualização) desvinculação da narrativa. Corpos em permanente suspensão, não-diegéticos, pretensamente puros, ou puramente cinematográficos. É por isto que Diva Dolorosa constitui não só um interessante comentário aos filmes das divas italianas, como essencialmente trabalha a capacidade de o cinema renovar as suas formas num orgânico contínuo.
