Nazaré (1952) é um filme no armário.
Um texto inicial adverte que o filme que se lhe seguirá é desprovido de fantasia, e que o seu único propósito é transferir para filme a verdade das vidas das famílias da Nazaré. Desde aí, como seria de esperar, a câmara constantemente desmente-o, numa denúncia instintiva da impossibilidade do cinema (da arte) corresponder a tal programa. O neo-realismo quis-se idealmente livre de forma, todo conteúdo, mas o cinema, como a literatura ou a pintura, jamais poderá ser livre de forma, porque a forma necessariamente enforma o conteúdo (para além de veicular, por si, outros conteúdos). A arte jamais será outra coisa que não arte, o que lhe impede ser ideologia. Nazaré - como tantos filmes neo-realistas e não só - é um filme que se impossibilita desde esse texto inicial. Mais: é um filme que, ao falhar corresponder ao programa que se impõe, se desrespeita claramente, mas isto porque seria, pela sua natureza de filme, incapaz de o fazer. É por esta razão que Nazaré é uma espécie de filme-bicha no armário, constantemente procurando reprimir os seus instintos, no entanto impossibilitado pelas circunstâncias da sua existência. É por isto que sabe particularmente bem assistir àqueles minutos finais, em que o filme - até então desejoso de auto-anulamento - explode, adoptando despudoradamente a montagem formalista dos russos, acompanhada por grandes planos cuidadosamente encenados (Manuel Guimarães, o realizador, vem da pintura, e nota-se), uma música em tom operático (ópera dos pobrezinhos, refira-se, mas ) que quase parece parodiar a legenda inicial. Como se o filme, durante a sua extensão (apenas 81 minutos), fosse progressivamente tomando consciência da impossibilidade de se auto-anular (visibilizo, logo existo) e no fim gritasse, dizendo: «'cause I was born this way, baby!», numa espécie de parada gay pride que dá gosto assistir. É bom assistir à emancipação deste filme, ao seu desprendimento progressivo das amarras daquele programa terrivelmente castrador.
O que daqui se deduz, debilmente, é que um filme, como um indivíduo, deve sempre respeitar a sua natureza, pois impor a si próprio outra significa condenar-se à desgraça. Outra coisa que se poderá deduzir, numa leitura atenta das analogias aqui aplicadas, é que defendo que o cinema livre é necessariamente homossexual, o que não se verifica (ou seja, não é algo que defenda). O que se passa é que todo o texto foi escrito a partir do mote: «escrever um post que contenha a frase «Nazaré é um filme-bicha no armário.» Isto é o que deverá ser retido.