(continuação [sensivelmente] do post anterior)
Descubro Ingeborg Holm (Sjöström, 1913), outro exemplo primitivo do melodrama maternal, em que a transfiguração se apresenta como fundamental na gestão da emoção que o filme - como bom melodrama (que é) - faz. Sinopse: o marido morre, a esposa (Ingeborg Holm) fica sozinha, mais as três crianças (uma delas bebé), o negócio da mercearia corre mal e acaba por levá-la à falência, ela é acolhida por uma instituição de beneficência e os filhos são-lhe retirados e entregues a pais adoptivos; quando a mãe lhes faz as malas, coloca nelas uma fotografia sua; passado algum tempo (e peripécias que não vale a pena aqui enumerar), a nova mãe do bebé leva-o à instituição, para ver a velha mãe, que não é reconhecida por ele e que, perante isto, enlouquece no momento, tomando um bocado de pano pelo seu bebé. Passam quinze anos e o filho mais velho é então um homem, que regressa do mar e visita a mãe na referida instituição, onde lhe é dito - para sua surpresa - que esta se encontra enlouquecida desde há muito tempo. Quando ela entra na sala de espera, entretida com o seu bebé de brincar, não reconhece o filho-criança que é agora adulto. Este, então, mostra-lhe a fotografia já citada&sublinhada, e Ingeborg reconhece nela a mulher que fora, readquirindo milagrosamente a consciência e reconhecendo, então, o filho. Resumindo: Ingeborg perde-se no momento em que um filho a não reconhece, e volta a encontrar-se quando um outro filho (que ela já não reconhece) lhe prova ser seu filho através de uma foto dela, num processo de reconhecimento do outro possibilitado pelo reconhecimento do «si mesma» de outrora.
Mais isto: curiosamente, como em Cenere, também aqui o nitrato lírico ameaça nesta última sequência. Enquanto isto que venho narrando sucede em campo, formas informes de luz ameaçam queimar a película e propagá-la para o domínio do inenarrável (invisível?). O efeito é [falta adjectivo]. Seguem-se ilustrações. Perdão pelos sublinhados.