6.11.11

As cinzas

 
 




















Tem o título de Cenere e conta o conto de uma mãe e um filho forçados, pelo destino, a uma separação. O momento do reencontro, passados anos de afastamento, é também o do reconhecimento. Quando a mãe havia deixado o rapaz com o pai, ele era ainda uma criança, tendo entretanto crescido, e, transformado em homem, regressado, interpretado por novo actor, que naturalmente Eleanora Duse não reconhece de imediato. Como é que corpos diferentes podem constituir o mesmo indivíduo? Não admira que esta mãe não reconheça o filho, se o corpo não é o mesmo (e quão diferente!). Apenas passa a sê-lo quando profere o nome, o mesmo que denominava, no início, o corpo de uma criança e, agora, o de um adulto.
Mas não era sobre isto que eu queria falar. Aquilo que verdadeiramente importa nesta cena é o feliz acaso de o nitrato lírico atacar, criando em campo um espaço de indefinição fantasmagórica entre ambos os corpos. Na primeira imagem, Anania reside ainda fora desse espaço, mas uma vez que a mãe entra em campo (ela, então, é já fantasma) ele aproxima-se desta e entra no campo do lirismo indefinido, adivinhando-se então uma metamorfose noutra coisa qualquer indefinível. O corpo que fora o de um rapaz tornou-se no de um adulto e transformar-se-á num corpo informe - informidade que contamina o intertítulo em que se anuncia o seu nome. Nesse momento, as identidades estanques de ambos estão já destruídas (ela não é só mãe, ele não é só filho, nem sequer Anania), e nem o intertítulo é, então, legível (não deixe que a legenda lhe estrague o efeito). Este era o momento em que o filme explodia, e o Tempo percebeu-o, «estragando» a cópia em processo de inteligente melhoramento.