17.11.11

Sobre a vida como narrativa-palimpsesto

No final de Sleepless in Seattle, Meg Ryan e Tom Hanks encontram-se finalmente no topo do Empire State Building, possibilitando o final feliz que cita Love Affair e especialmente o seu remake, An Affair to Remember, que usam os mesmos tropos (desencontros, romance, Empire State Building) como pilares estruturais de uma narrativa. A piada de Sleepless in Seattle é tratar-se de um filme quase pós-cinema, em que as personagens não são personagens, porque já não é possível a existência de personagens (personagens=passado; pessoas=presente). Meg Ryan chora a ver Deborah Kerr e Cary Grant na tv, e nós, ao observarmos aquela mulher a assistir a um filme que conhecemos tão bem quanto o An Affair to Remember, estamos perante uma igual (=indivíduo ordinário que, entre outras coisas, vê filmes, rindo e chorando com eles, e estabelecendo as mais diversas analogias entre as narrativas dos filmes e a narrativa da sua vida). Às tantas, a amiga diz-lhe qualquer coisa do género: "You don't want to be in love, you want to be in love in a movie". É o espelho de algo dificilmente contrariável: a linha entre a vida e o filme, para quem ama o cinema (a literatura, enfim, qualquer tipo de representação), é muitas vezes ténue. A vida imita a arte [chavão], e mesmo que tal não se faça voluntariamente, a reflexão sobre a vida pelo indivíduo é necessariamente informada (sou um conservador, pelo que não uso enformada) por ideias acerca das vidas dos filmes.
Trata-se de uma das várias (muitas) razões pelas quais o meu género é o melodrama (curiosamente o género invocado em Sleepless in Seattle, em terno abraço com a comédia romântica): quando o acaso me fornece vida que parece melodrama, sorrio (e choro) como quem sorri (e chora) perante um filme de Douglas Sirk. Talvez com mais gosto ainda: uma vida informada pela consciência do cinema, e especificamente pela consciência do excesso artificioso/hiper-real do género melodramático, é uma vida melhor [fonte que o comprove em falta].